Promessas de início de ano

Tempo de leitura: 9 minutos

“Adeus ano velho, Feliz Ano Novo!”

Assim ele cantava, a plenos pulmões, à meia-noite do dia 1º de janeiro, embalado pelos vapores do álcool e pelas espirais da fumaça do cigarro. De pé, erguia a taça, desejando a todos “um feliz ano novo, com muito dinheiro.”
“E que você perca um pouco da barriga!”, acrescentou um amigo, em tom de brincadeira. Mas o anfitrião, sem se ofender, retrucou que naquele ano, sim, voltaria a fazer dieta e caminhadas: “Ano novo, vida nova! Vocês vão ver”.
Mas ninguém viu. No dia seguinte, com a desculpa de que era feriado, dispensou-se de começar o regime. Depois, no primeiro dia útil, junto aos companheiros de trabalho, achou que não ficaria bem comer somente salada se todos estavam comendo feijoada. E assim, de desculpa em desculpa, deixou para o “dia de São Nunca” a realização dos propósitos do réveillon.

Emoção X Inteligência
Certamente passamos por situações semelhantes a história descrita nos parágrafos anteriores. As reações, porém, podem e devem ser diversas, pois “quebrar” o regime não significa deixá-lo de lado, mas recomeçá-lo. O mesmo vale para outros propósitos de inicio de ano.
Por que, então, não somos fieis às nossas promessas? Possivelmente porque nos guiamos pela emoção do momento. Percebemos, então, que temos de nos guiar pela inteligência que, ao refletir sobre o motivo que nos levou àquela determinação, estimula nossa vontade.
E aqui entra a necessidade da oração. A força para vencermos a nós mesmos e sermos responsáveis na dieta, na fidelidade, na busca por aperfeiçoamento, enfim, nas promessas que costumamos fazer, não vem de nós, mas de Deus.
E os outros?
As promessas de início de ano geralmente estão ligadas a um benefício pessoal: ganhar muito dinheiro, emagrecer, mudar de emprego, viajar, ter um corpo “sarado”. Poucas vezes referem-se ao benefício da coletividade e raramente leva em consideração o crescimento espiritual. Por isso, devemos ter fé em Deus, nossa força. Essa fé nos acenderá a esperança quando fraquejarmos; dela nascerá o amor. Deus é amor e nós, filhos do amor, só seremos feliz se amarmos os outros.
Por que não tratar melhor o cônjuge, oferecer a ele ou a ela todo o carinho prometido um dia? Que tal prometer a si mesmo se aproximar dos filhos e ter paciência para ouvi-los, em vez de reclamar que eles não conversam com você? Ou ainda dar mais atenção aos velhos pais, para os quais às vezes, nem sequer telefonamos?
A lição de Jesus
Há quatro virtudes que devem dar sustentação às nossas promessas, conhecidas como cardinais ou cardeais. São elas a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança – conforme nos indica o Catecismo da Igreja Católica -, que devemos pedir insistentemente ao Senhor todos os dias.
A prudência é a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem, e a escolher os meios adequados para realizá-lo. Jesus nos aconselha prudência antes de iniciarmos uma empreitada: “Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la? Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: “Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar”” (Lc 14,28-30).
A justiça consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. “Senhores, tratai vossos servos com justiça e igualdade. Sabeis perfeitamente que também vós tendes um Senhor no céu”, aconselhou São Paulo aos colossenses (4,1). Por isso, nossa promessa não pode prejudicar os outros.
A fortaleza dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela firma a resolução de resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral. Ela é, sobretudo, importante na hora em que “escorregamos” e somos tentados a abandonar o prometido.
A temperança modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. “Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos” (Eclo 18,30). A temperança é uma virtude importante para dar assistência a inteligência e à vontade.
E se “as virtudes humanas se fundam nas virtudes teologais, que adaptam as faculdades do homem para que possa participar da natureza divina” (Catecismo da Doutrina Católica, p. 1812-1813), por que não cultivarmos com mais firmeza, entre nossa promessas, as virtudes infundidas por Deus em nossa alma: fpe, esperança e principalmente caridade? A fé em Deus, a certeza de que Ele nos criou para a vida eterna e o amor incondicional a Deus e ao próximo nos tornam mais firmes e confiantes nos propósitos que desejamos alcançar.
Critérios de escolha
Neste início de ano, vamos escolher objetivos pelas quais valha a pena lutar e que possam ser cumpridos. Nossa oração, porém, deve buscar primeiro a felicidade de nossa família, pois é lá onde está o “próximo mais próximo” a quem Jesus pediu que tratássemos com amor. Quando agimos assim, será a Ele próprio que o faremos: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40).

Retirado da Revista Ave Maria, ano 114, janeiro 2013, pág. 22 e 23.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 − 12 =