Estação

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Eis-me aqui, numa destas estações da Vida, aguardando, ansioso, a chegada do Trem da Felicidade. E com o meu fiel companheiro atado ao braço esquerdo, marco o tempo da espera. Relógio que exibe em fatias a ânsia do novo, fatiando também o meu coração já em pedaços.

Olho para o Nascente, na esperança de enxergar o mínimo sinal da fumaça branca que brota da chaminé da sonhada locomotiva, mas nada. Nada além de uma revoada de pássaros ao longe, migrando para o Sul, escapando do vento frio do inverno que se aproxima. Inverno que já me alcançou, fazendo cair minhas folhas, esfriando minha alma, encharcando minhas alegrias, afogando meus sonhos. Pelo aspecto das aves, diria que são garças. Ah, e quem dera fossem Graças e migrassem para o meu coração! As Graças que um dia pedi e que ainda devem estar no Alto de Sua Morada, aguardando a divina hora de Sua revoada, hora que desconheço e que não pode ser marcada pelos relógios humanos, pois não os obedece.

Falando em horas, há tantas aguardo. Nesta estação, onde estacionou o meu coração, parece que o tempo também estacionou. E estacionados estão os meus braços, cruzados sobre o meu peito. Estacionadas estão minhas pernas, cruzadas sobre o banco estacionado. E estacionado estou por completo, quando o cochilo avança sobre os meus olhos e estaciona em mim, arrebatando-me de minha consciência. Logo se torna sono, e sono profundo! Tão profundo que não escuto o apito do Trem que ecoa em badalos, anunciando, finalmente, a sua chegada.

E eis que chega, puxando o vagão repleto de lenha santa, utilizada para inflamar a fornalha das mais baixas autoestimas. Além deste, muitos outros vagões também são puxados, cheinhos, abarrotados de Graças. Pedidas e não pedidas! E pára à minha frente, apitando com estrondo! Não acordo. A cobradora, que na verdade não é cobradora, é distribuidora de Graças, chamada Maria, salta do trem e tenta, docemente, me acordar. Não acordo. Ela insiste, calma, doce, maternal. Não acordo. Adentra a locomotiva. O Maquinista, com suas mãos furadas, também salta do trem e me chama pelo nome: “Filho, filho!”. Não acordo. Dirige-se à cabine e soa um último e estrondoso apito. Não acordo. Parte então seguindo os trilhos, rumo a outras estações.

Enfim, acordo. Olho novamente para o Nascente, e nada. Olho para o Poente e vejo, longe, o que parecem ser traços de fumaça branca expelida de um trem. Mas não deve ser, penso eu. Se o Trem tivesse passado, eu o teria visto. Devem ser garças voando, rumo ao Sul.

Por Alexandre Sousa

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