E por falar em reunião de pais, semear e colher…

Tempo de leitura: 10 minutos

“Mais uma reunião de pais dos catequizandos de primeira Eucaristia e mais uma decepção. Cadê os pais? Será que nossas crianças foram fabricadas em laboratório? Será que são órfãs e sozinhas neste mundo, respondem por si mesmas? Não basta apenas colocar a criança na catequese; é preciso acompanhar, celebrar junto. Imagine se o catequista não comparece aos encontros, marca algum encontro com pais e não comparece, não avisa, todo mundo cai na pele. Por que então os pais não assumem o compromisso cristão de comparecer ao menos às reuniões preparatórias para a celebração do sacramento? No dia da missa da Crisma ou Primeira Comunhão estão lá, faltam derrubar o padre e os catequistas para tentar tirar foto do filho. Se a gente não permite: a,i ai, tenho que registrar esse momento. Fica aqui a minha indignação pelos pais ausentes. Mas é preciso valorizar aqueles que estão presentes em todas as ocasiões, que celebram juntos, que aparecem mesmo sem ser convidados só porque se preocupam, só porque se interessam por tudo que diz respeito aos filhos. Esses sim, são merecedores do nosso mais profundo respeito.”

Não sei bem quantos desabafos assim, ou parecidos, eu já li em minha vida de catequista. Só sei que, este assunto, bem como as queixas de modo geral, não mudam. E as soluções também parecem  não divergir:

“Precisamos evangelizar as famílias. Elas estão perdendo a noção do sagrado, da importância de Deus na vida da família.”

“Jesus catequizava os adultos e acolhia as crianças… nós estamos no caminho inverso.”

“Essa situação é muito parecida com muitas realidades que conhecemos, mas acho que o mais importante nós Catequistas fizemos, levamos Jesus para nossas crianças, e com certeza plantamos a sementinha…”

Sim, é isso: precisamos evangelizar a família! Afinal de contas, ela é a PRIMEIRA CATEQUISTA DA CRIANÇA. E por que, afinal, a família não “catequiza” os filhos? Será que estes pais não freqüentaram a catequese algum dia na vida? E, se freqüentaram, que catequese foi essa? Pra mim isso só diz uma coisa: nosso fracasso não é coisa de hoje! A gente vem fazendo o “inverso” faz muito tempo. Nossa catequese é total e completamente ineficaz. Os pais de hoje não eram os filhos de ontem? Não tem gente aí que é catequista há trinta anos? Isso significa que já catequizaram muitas gerações… Cadê esses evangelizados?

E não estou dizendo que os catequistas de antigamente não sabiam evangelizar. Vou dizer uma coisa a nosso respeito, catequistas de hoje: nossos catequizandos atuais, serão os pais e avós dos catequizandos das nossas filhas e netas catequistas. Que vão reclamar da mesma coisa daqui a trinta anos ou quarenta anos… Com uma só diferença: serão bem menos os católicos e bem mais os sem-religião ou multi-religião.

E esse é um fenômeno comprovado pelo último SENSO, não sou eu que estou inventando. A religião católica no Brasil, bem como o judaísmo aí pelo mundo afora, é mais uma questão de inculturação do que propriamente de religião. Essa é a explicação para o “atropelo” na hora das fotos. Ai do católico(a) que não tiver uma foto vestida de branco ou de “terninho” para comprovar que fez devidamente a “primeira (e muitas vezes última) comunhão”. Mas novas culturas vão surgindo… E a sociedade vai se adaptando. E o que podia ser considerado quase 100% há cem anos atrás, se transformou em pouco mais de 60% . E está ficando cada vez mais normal fazer todas essas coisas ao mesmo tempo: ser católico, ir ao culto evangélico, frequentar centro espírita e jogar umas flores pra Iemanjá de vez em quando.

Eu estive na catequese há trinta e cinco anos atrás. E posso dizer que ela foi muito pouco eficaz. Não me lembro de absolutamente nada dela. Era feito uma espécie de “arrastão” nas escolas, nas 3ª séries do primário (ano que as crianças completam nove anos) e a catequese era dada ali mesmo, depois do período de aula por cerca de seis meses. Como não me lembro de um encontro sequer, acho que nem isso. Só pra reforçar, não sou tão velha assim, isso foi em 1975. O Concílio Vaticano II  já tinha 10 anos.

Se sou religiosa hoje e catequista, devo isso a fé que me foi incutida pela minha mãe e pelas provações da vida. Claro, tive orientação dos meus pais, valores, aprendi a rezar assim que aprendi a falar; mas não lembro de ter ido á missa com eles mais do que umas três vezes na vida. E, infelizmente, é assim que se faz um católico na maioria das vezes. Se ele se tornar um bom fiel e freqüentar a Igreja até o fim da vida, aleluia!

Agora vamos à história das tais “sementinhas”. Tese defendida por muitos catequistas… A de que estamos plantando sementes, que pode não parecer que vai ter futuro mas, que um dia brotam. Penso que deveríamos ler com mais atenção a Parábola do Semeador.

Pois, do jeito que são as coisas, se estivéssemos nós na presença de Jesus, também lhe diríamos: Senhor, por que fala por parábolas? Não entendi nada… E novamente Jesus nos explicaria aquilo que qualquer semeador deveria saber: não se planta a beira de um caminho onde não se volta mais, não se planta nas pedras e nem entre espinhos. Não se quiser colher alguma coisa. A semente vai crescer um pouco, mas vai morrer. O solo precisa estar fértil e preparado e a semente precisa ser cuidada para dar trinta, sessenta, cem por um.  Trocando em miúdos, é a catequese com base familiar e a catequese permanente. É a catequese para quem tem maturidade e capacidade de escolha.

Mas nós, semeadores compulsivos, continuamos a semear por atacado. Sem se incomodar  se a terra é boa ou não. É lindo dizer que tenho 30 catequizandos. Que maravilha! Mas só uma meia dúzia sabe do que estou falando… Mas aí vem a pergunta: não devemos semear mesmo em todo lugar? Alguma semente deve vingar. Com muito estresse e perseverança, até vingam… Mas a que custo!

Finalizando minha analogia, nossos pais são sementes perdidas. Quiçá nossas crianças não as sejam. Mas os prognósticos não são bons. Pedras, espinhos e falta de preocupação onde se joga a semente; continuam a ser uma prática constante na catequese. Deveríamos, creio, passar a ser mais “preparadores de solo” do que propriamente “semeadores”.

Se queremos “semear”, alguém tem que vir antes de nós, preparando o solo, tirando as pedras, arrancando os espinhos. Isso não está acontecendo. E também não se semeia e esquece o “cuidado”. Então, ainda vamos chorar muito por ver nossas plantações devastadas pelo nosso próprio descaso.

Ângela Rocha
angprr@uol.com.br

1 comentário

  1. Paulo Henrique

    É interessante como a nossa catequese esta cada vez mais formando realmente jovens que não conhecem a nossa religião católica, estamos cada vez mais apenas realizando um trabalho por apenas egoismo, é isso mesmo, pois muitos catequista não buscam a formação necessária para catequizar e se buscam buscam a formação errada apenas para dar o encontro apenas para cumprir calendário de temas que ficam superficialmente no entendimento dos jovens, esquecendo de explicar e profundamente por que estão ali. Estamos tão focados em dar temas num espaço restrito de tempo que esquecemos de pregar o Cristo que vivenciamos na nossa religião, achando que a religião não tem importância, apenas viver cristo, é estranho por que eu sou católico e defendo a minha religião e procuro me aprofundar nela nos documentos da Igreja, mostrando como ser católico é maravilhoso. Apenas cumprir calendário é fácil difícil é viver aquilo que se prega é eu ser católico num mundo em que tudo é normal, num mundo em que a família vai perdendo seu espaço para outros tipos de convivência que devemos também chamar de família, que não deve ser discriminado mais também não deve ser visto como o exemplo daquilo que Deus quis para a humanidade em seu momento de criação, a humanidade esta perdendo a sua essência. O q

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