Cidadãos do Céu: a experiência das primeiras comunidades cristãs na busca pelo Reino de Deus.

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Texto escrito por Paulo Samuel Viana Castro

As palavras de Jesus no Evangelho de João 18,36 nunca soaram com tanta intensidade na vida e no coração dos adeptos do cristianismo primitivo. Ao afirmar que seu Reino não é deste mundo, Jesus propõe para aqueles que acolheram sua mensagem, uma nova realidade que perpassa toda e qualquer realidade material e finita. Somos levados a penetrar em uma dimensão que excede nossa natureza humana, fazendo-nos herdeiros de algo muito maior, garantido com sua morte na cruz e sua ressurreição.

A afirmação “outra pátria” ou o sentindo de pertença a outro território era bastante caro e problemático para os primeiros cristãos no contexto político e cultural em que os mesmos estavam inseridos. Diante de um Império Romano bastante centralizador, o surgimento de uma nova mentalidade e uma nova conduta de vida se tornava algo bastante reacionário, sobretudo, quando já havia uma moral estabelecida. Falar de um possível pertencimento a terras estrangeiras e/ou desconhecidas dentro de uma moral política que tem um conceito de cidadania bastante peculiar, se mostra de forma evidente, a dura oposição em que os primeiros cristãos enfrentavam na caminhada rumo ao Reino de Deus que, antes de tudo se concretizava no mundo terreno.

Antes de tudo, é preciso entender as disposições políticas, sociais e até mesmo culturais estabelecidas na realidade da sociedade em questão. O caráter político aliado ao aspecto religioso de um duro sistema que era a república romana, agravava cada vez mais a situação. Ser cidadão, além de estar associado a toda uma moral presente desde o nascimento, era uma garantia de participação que incidia nas diversas dimensões inerentes a realidade dos indivíduos.

O cristianismo, ao inaugurar uma nova relação com o até então sistema religioso vigente, também pressupõe uma nova conduta social. Pois, elencando uma nova consciência, apresenta uma paradoxal cidadania para o contexto da época.Atualmente, com o avanço da cultura material e o empobrecimento das realidades eternas, somos envoltos em discursos que muito nos nega a promessa de vida eterna como a mais sublime expressão do Reino de Deus.

A experiência dos primeiros cristãos nos lembra que os discípulos de Cristo vivem na cidade terrena, mas sem sê-los. Somos estrangeiros nesse mundo, pois não pertencemos a ele. Estamos simplesmente a peregrinar rumo a nosso verdadeiro destino. Muitas são as vezes que, sem perceber, nos ligamos a elementos humanos através do apego ao dinheiro, a bem materiais, e esquecemos que o verdadeiro tesouro que devemos reunir é no Céu, pois lá se encontra o nosso coração.

Por outro lado, nesse mundo, somos convidados a pôr em prática o desejo de Deus no acolhimento do verdadeiro discipulado. Somos “Sal da terra e Luz do mundo” e isso nunca deve ser perdido de vista na concretização do mundo que desejamos, um reino de amor e de paz, onde reina sempre a justiça. Essa consciência deve estar presente desde já, acreditando que Deus, presente em cada um de nós, quer que o Reino de Deus seja a continuação da mensagem acolhida por nosso coração, como na Igreja Primitiva.

 

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