Boyhood é sobre o tempo comum

Tempo de leitura: 7 minutos

Projeto audacioso do diretor americano Richard Linklater acompanha a vida de um menino dos 6 aos 18 anos, em meio aos dramas sociais e familiares

Por Carla Maria Carreiro

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A máxima de que a “pressa é inimiga da perfeição” parece reger o trabalho do diretor e roteirista americano Richard Linklater. A passagem dos anos e a transformação que ela exerce no ser humano são elementos explorados com afinco em diversas de suas obras.

Na trilogia Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), o tempo é explorado individualmente em cada filme – da urgência dos recém-apaixonados que não sabem se um dia se reencontrarão ao casal maduro que entre filhos e trabalho, mal tem tempo um para o outro -, como também no conjunto, na construção da linha cronológica que acompanha os processos de mudança de Jesse e Celine ao longo de 18 anos.

O intervalo de nove anos entre cada filme da trilogia foi um grande aliado do projeto do diretor, já que o passar dos anos e a sintonia construída na “vida real”, entre os atores Ethan Hawke, Julie Delpy e o diretor, agregou ainda mais autenticidade e espontaneidade aos diálogos fluidos de Linklater. Na história de Jesse e Celine, nada soa forçado; o amor entre ambos não é clichê tampouco mágico. E por soar tão natural, arrebatou fãs em todo o mundo.

Assim como na trilogia que trouxe fama ao diretor; em Boyhood – da infância à juventude, acompanhamos o protagonista num intervalo de 12 anos reais, mas em um único filme. Considerado o projeto mais ambicioso do diretor; o longa-metragem acompanha a vida de Mason (Ellar Coltrane) dos 6 anos até sua ida à faculdade, aos 18. De 2001 a 2013, a equipe do filme reuniu-se uma vez por ano para gravar o dia a dia do filho de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette), seu processo de amadurecimento, os conflitos da adolescência. O resultado foi uma narrativa de 160 minutos, que poderia ser a minha história, a sua, do seu amigo, do seu vizinho.

Como bem definiu o crítico David Ives, Boyhood é sobre o tempo comum, aquela longa parte do calendário litúrgico que não inclui as festas de preceito, os batizados, as confirmações etc. Não há grandes acontecimentos que marcam a passagem do tempo. Não vemos nenhuma das cenas típicas de Hollywood destinadas a demarcar os ´ritos de passagem´ de uma criança ou de um adolescente. No entanto, é no tempo comum que passamos a maior parte dos nossos dias, vivendo, aprendendo e crescendo como pessoas.

“Em certo sentido, isso faz com que os dias ordinários do tempo comum seja tão importantes quanto os grandes eventos, se não mais importantes ainda. Podemos comprar roupas novas para a primeira comunhão das crianças, convidar os parentes para comemorar e tirar muitas fotos. Mas é nos dias e anos que se seguem a esse ritual de passagem que as crianças aprendem de fato (espera-se) o significado mais profundo da comunhão na sua vida”, define o crítico.

As referências culturais – desenhos, notícias, músicas – são outros elementos que ajudam a marcar a passagem do tempo e conectar o espectador à narrativa. Embora o filme possa se arrastar em alguns momentos, ao final, a sensação é de que crescemos juntos com Mason; aquilo que ele viveu poderia ter sido o que vivemos. Em Boyhood, assistimos à nossa própria história.

Boyhood – da infância à Juventude

(Boyhood). EUA, 2014. 165 min. Direção: Richard Linklater. Com Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquete, Lorelai Linklater. Em cartaz nos cinemas.

Retirado da Revista Ave-Maria, ano 116, dezembro 2014, pág. 60 e 61.

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